quinta-feira, 12 de julho de 2012

MAC (Niterói) - "A linha reta o levará somente à morte"




 



Niemeyer, que é o autor do projeto do MAC (Museu de Arte Contemporânea, ilustrado neste post), adora curvas. Certa vez escreveu o arquiteto:
"O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso de seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein".

Gosto de imaginar que Niemeyer já tenha lido na vida a frase de Jack Kerouac que é o título deste post, aliás, uma frase de que gosto muito. Por falar nisso, estou lendo On The Road novamente, me preparando para a estréia do filme de mesmo nome no cinema.

Mas agora, quero contar e registrar uma história (antes que até eu me esqueça) dos tempos imemoriais de faculdade. Certa vez, estava eu no MAC assistindo a uma palestra do grande arquiteto Oscar Niemeyer. Digo grande, pois naquela época eu era apenas um mero estudante cursando os primeiros períodos de arquitetura e Niemeyer era uma figura mítica. Era tão mítico que eu podia guardá-lo na mesma caixa de outras figuras míticas como o unicórnio, o fauno, a sereia,  o saci, etc.
A palestra foi como eram todas as palestras do arquiteto. Ele fez alguns croquis, falou dos projetos, falou que o MAC nasceu como uma flor que se debruça sobre a Guanabara, falou que a arquitetura não era importante e o que realmente importava eram os amigos e as curvas da mulher amada. Homem sábio.
Depois da palestra formou-se um furdunço, uma fila descomunal de estudantes em busca de um croqui assinado pelo mestre. Depois de 100 (literalmente) estudantes chegava - finalmente - a minha vez. Niemeyer estava sentado junto à uma mesa, com uma cadeira vazia ao seu lado.
Sentei na cadeira.
- Oi meu filho, tudo bem?
- Tudo, e com senhor?
- Qual é o seu nome?
- Rafael.
- Qual projeto você gosta?
- Eu queria a catedral (de Brasília)
Niemeyer desenhou a catedral em um papel A4, colocou o meu nome, assinou e me entregou o desenho, eu agradeci. Era a centésima primeira vez que ele fazia aquilo naquela noite - já havia anoitecido e ninguém arredava o pé da fila - faltavam ainda uns 150 estudantes. Já estava me levantando da cadeira quando ele perguntou:
- Tem muita gente na fila aí fora?
- Sim, mais de 100.
Ele deu um sorriso ensimesmado e disse:
É meu filho, eu “tô fudido" mesmo.
Dei um sorriso e fui embora satisfeito com meu croqui assinado pelo Niemeyer. 
Recentemente aconteceu na FAU-UFRJ uma palestra da renomada arquiteta Zaha Hadid e foi engraçado e prazeroso reconhecer nos estudantes - que esperavam por uma dedicatória após a palestra - a mesma cara de bobo que eu ostentava orgulhoso naquele dia da palestra do Niemeyer no MAC.