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sábado, 6 de setembro de 2014
quarta-feira, 30 de julho de 2014
"O verdadeiro retrato da cidade está nas frestas do chão e nos menores pedaços da arquitetura" (Will Eisner)
Prezados,
posto aqui alguns croquis etnográficos que fiz no morro da Conceição e no morro da Providência, na área portuária do Rio de Janeiro. Estes desenhos fazem parte da minha pesquisa de doutorado. A ideia é deixar-se contaminar por tudo o que acontece ao redor, ao longo do tempo em que se permanece desenhando no lugar. A brincadeira nesses desenhos foi observar não só com a visão, mas também tentar registrar os cheiros, as falas, os personagens, as arquiteturas, os acontecimentos inusitados, o cotidiano, os sons, etc.
A ideia é representar, reconhecendo ao mesmo tempo, as características que constroem um lugar, a relação das pessoas com os lugares, as formas de apropriação desses lugares. O desenho é visto como um processo criativo, uma forma de se entender alguma coisa, e não como fim em si mesmo. Para tanto, venho elaborando (junto com alunos da FAU UFRJ) narrativas gráficas (ou Histórias em Quadrinhos) construídas a partir de derivas psicogeográficas feitas com personagens "reais", habitantes da cidade, e do acúmulo diário de desenhos feitos nesses mesmos locais. Autores como Will Eisner, Joe Sacco, Robert Crumb, Art Spiegelman, François Schuiten e Benoit Peeters, Chris Ware, entre outros, foram grandes referências para a pesquisa.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
MAC (Niterói) - "A linha reta o levará somente à morte"
Niemeyer, que é o autor do projeto do MAC (Museu de Arte Contemporânea, ilustrado neste post), adora curvas. Certa vez escreveu o arquiteto:
"O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso de seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein".
Gosto de imaginar que Niemeyer já tenha lido na vida a frase de Jack Kerouac que é o título deste post, aliás, uma frase de que gosto muito. Por falar nisso, estou lendo On The Road novamente, me preparando para a estréia do filme de mesmo nome no cinema.
Mas agora, quero contar e registrar uma história (antes que até eu me esqueça) dos tempos imemoriais de faculdade. Certa vez, estava eu no MAC assistindo a uma palestra do grande arquiteto Oscar Niemeyer. Digo grande, pois naquela época eu era apenas um mero estudante cursando os primeiros períodos de arquitetura e Niemeyer era uma figura mítica. Era tão mítico que eu podia guardá-lo na mesma caixa de outras figuras míticas como o unicórnio, o fauno, a sereia, o saci, etc.
A palestra foi como eram todas as palestras do arquiteto. Ele fez alguns croquis, falou dos projetos, falou que o MAC nasceu como uma flor que se debruça sobre a Guanabara, falou que a arquitetura não era importante e o que realmente importava eram os amigos e as curvas da mulher amada. Homem sábio.
Depois da palestra formou-se um furdunço, uma fila descomunal de estudantes em busca de um croqui assinado pelo mestre. Depois de 100 (literalmente) estudantes chegava - finalmente - a minha vez. Niemeyer estava sentado junto à uma mesa, com uma cadeira vazia ao seu lado.
Sentei na cadeira.
- Oi meu filho, tudo bem?
- Tudo, e com senhor?
- Qual é o seu nome?
- Rafael.
- Qual projeto você gosta?
- Eu queria a catedral (de Brasília)
Niemeyer desenhou a catedral em um papel A4, colocou o meu nome, assinou e me entregou o desenho, eu agradeci. Era a centésima primeira vez que ele fazia aquilo naquela noite - já havia anoitecido e ninguém arredava o pé da fila - faltavam ainda uns 150 estudantes. Já estava me levantando da cadeira quando ele perguntou:
- Tem muita gente na fila aí fora?
- Sim, mais de 100.
Ele deu um sorriso ensimesmado e disse:
É meu filho, eu “tô fudido" mesmo.
Dei um sorriso e fui embora satisfeito com meu croqui assinado pelo Niemeyer.
"O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso de seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein".
Gosto de imaginar que Niemeyer já tenha lido na vida a frase de Jack Kerouac que é o título deste post, aliás, uma frase de que gosto muito. Por falar nisso, estou lendo On The Road novamente, me preparando para a estréia do filme de mesmo nome no cinema.
Mas agora, quero contar e registrar uma história (antes que até eu me esqueça) dos tempos imemoriais de faculdade. Certa vez, estava eu no MAC assistindo a uma palestra do grande arquiteto Oscar Niemeyer. Digo grande, pois naquela época eu era apenas um mero estudante cursando os primeiros períodos de arquitetura e Niemeyer era uma figura mítica. Era tão mítico que eu podia guardá-lo na mesma caixa de outras figuras míticas como o unicórnio, o fauno, a sereia, o saci, etc.
A palestra foi como eram todas as palestras do arquiteto. Ele fez alguns croquis, falou dos projetos, falou que o MAC nasceu como uma flor que se debruça sobre a Guanabara, falou que a arquitetura não era importante e o que realmente importava eram os amigos e as curvas da mulher amada. Homem sábio.
Depois da palestra formou-se um furdunço, uma fila descomunal de estudantes em busca de um croqui assinado pelo mestre. Depois de 100 (literalmente) estudantes chegava - finalmente - a minha vez. Niemeyer estava sentado junto à uma mesa, com uma cadeira vazia ao seu lado.
Sentei na cadeira.
- Oi meu filho, tudo bem?
- Tudo, e com senhor?
- Qual é o seu nome?
- Rafael.
- Qual projeto você gosta?
- Eu queria a catedral (de Brasília)
Niemeyer desenhou a catedral em um papel A4, colocou o meu nome, assinou e me entregou o desenho, eu agradeci. Era a centésima primeira vez que ele fazia aquilo naquela noite - já havia anoitecido e ninguém arredava o pé da fila - faltavam ainda uns 150 estudantes. Já estava me levantando da cadeira quando ele perguntou:
- Tem muita gente na fila aí fora?
- Sim, mais de 100.
Ele deu um sorriso ensimesmado e disse:
É meu filho, eu “tô fudido" mesmo.
Dei um sorriso e fui embora satisfeito com meu croqui assinado pelo Niemeyer.
Recentemente aconteceu na FAU-UFRJ uma palestra da renomada arquiteta Zaha Hadid e foi engraçado e prazeroso reconhecer nos estudantes - que esperavam por uma dedicatória após a palestra - a mesma cara de bobo que eu ostentava orgulhoso naquele dia da palestra do Niemeyer no MAC.

segunda-feira, 9 de julho de 2012
Picnic no MAM
Esses são desenhos de algumas semanas atrás que esqueci de postar aqui. Fizemos um picnic nos jardins do MAM. Estavam presentes diversos professores e um bom número de alunos entediados pela greve e com vontade de aproveitar mais um dia sensacional de sol na cidade maravilhosa.
Tenho uma ligação afetiva muito forte com os jardins do MAM, por diversas razões. Na minha infância, meus pais constumavam me levar lá para andar de bicicleta, pegar sol, fazer picnic, costume que guardo até hoje. Naquela época (distante) costumava escalar as pedras do jardim e a estrutura de concreto (em "V") do edifício (já me relacionava, em certa medida, com arquitetura de primeira qualidade, mesmo que de forma inconsciente). Em uma galáxia mais próxima do tempo, também são inesquecíveis as tardes de domingo nos ensaios do Orquestra Voadora durante o pré-carnaval.
Muitos amigos meus (não arquitetos) acham que o projeto do MAM é do Niemeyer, mas eu os informo que estão equivocados. O MAM foi projetado por um dos arquitetos mais talentosos de sua geração e que, infelizmente, morreu prematuramente. Seu nome era Affonso Eduardo Reidy e, além do MAM, nos deixou várias obras construídas, dentre elas: Aterro e Parque do Flamengo, conjunto residencial Pedregulho (São Cristovão), conjunto residencial Marquês de São Vicente (Gávea), Teatro Popular Armando Gonzaga (Marechal Hermes), inúmeras residências espalhadas pela cidade e tantas outras.
Alguns entendidos dizem que, enquanto Niemeyer é um grande criador de formas, Reidy era capaz de associar riqueza plástica com conteúdo social e viabilidade econômica. A criação do Departamento de Habitação Popular, pela engenheira Carmen Portinho, possibilitou que Reidy (indicado como Chefe do Setor de Planejamento) realizasse obras de destaque nacional e internacional, como são os casos dos conjuntos residenciais do Pedregulho e da Gávea. O projeto do Pedregulho ganhou o Primeiro Prêmio da Bienal Internacional de São Paulo de 1951.
Como escreveu Nabil Bonduki: Affonso Eduardo Reidy é um dos pioneiros da renovação da arquitetura no Brasil, formando com Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, o grupo de proa que colocou a arquitetura moderna brasileira em destaque no cenário internacional.
Destaco aqui um trecho de um texto de 1953, do próprio Reidy, sobre o projeto do MAM:
"Se a correspondência entre a obra arquitetural e o ambiente físico que o envolve é sempre um questão da maior importância, no caso do edifício do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro essa condição adquire ainda maior vulto, dada a situação privilegiada do local em que está sendo construído, em pleno coração da cidade, no meio de um extensa área que num futuro próximo será um belo parque público, debruçado sobre o mar, frente à entrada da barra e rodeada pela mais bela paisagem do mundo. Foi preocupação constante do arquiteto evitar, tanto quanto possível, que o edifício viesse a constituir um elemento perturbador na paisagem, entrando em conflito com a natureza. Daí o partido adotado, com o predomínio da horizontal em contraposição ao movimento perfil das montanhas e o emprego de uma estrutura extremamente vazada e transparente, que permitirá manter a continuidade dos jardins até o mar, através do próprio edifício, o qual deixará livre uma parte apreciável do pavimento térreo. Em lugar de confinar as obras de arte entre quatro paredes, num absoluto isolamento do mundo exterior, foi adotada uma solução aberta, em que a natureza circundante participasse do espetáculo oferecido ao visitante do Museu. [...]"
Fonte: Affonso Eduardo Reidy / [Organizador/editor Nabil Georges Bonduki] - São Paulo : Instituto Lina Bo e P. M. Bardi ; Lisboa : Editora Blau, 1999.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Um belo e estranho dia para desenhar o Pão de Açúcar
Para não ficarmos parados durante essa greve prolongada das universidades federais, eu e alguns alunos fomos aproveitar o dia na praia Vermelha, no bairro da Urca. O dia estava lindo e mais uma vez o Pão de Açúcar atraiu o meu olhar (e olha que a concorrência estava forte, quem foi sabe do que estou falando), servindo de motivo principal da aquarela que posto aqui.
Faremos, na próxima, semana uma visita "desenhística" ao MAC (em Niterói) devidamente munidos de nossos cadernos de croquis, é claro. Essa visita só acontecerá, evidentemente, se a greve continuar e parece que vai continuar - afinal, aparentemente, o governo e a grande maioria dos meios de comunicação não estão nem aí para os nossos problemas educacionais.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Sketchbook + Centro Cultural Carioca + Dança + Praça Tiradentes
Nas noites de quinta-feira acontece um baile de dança de salão em plena calçada da praça Tiradentes, em frente ao edifício registrado no desenho abaixo, que fiz durante a ocasião. No terceiro andar do mesmo edifício fica a Escola de Dança Centro Cultural Carioca que é a organizadora do evento.
Não é a primeira vez que tento registrar esse baile no meu caderno, o cenário é bonito, rola uma energia legal entre as pessoas, mas na outra ocasião caiu um temporal daqueles e não deu para desenhar; ainda assim, alguns casais insistentes continuaram dançando na chuva por horas. Porém, na última quinta, a noite estava linda e não quis deixar a oportunidade passar. Agradecimentos especiais aos mendigos, bêbados e afins que deram palpites no desenho naquela noite e aos amigos que figuram como os dançarinos do baile.
Aquele abraço
Sketchbook + Buenos Aires
Aproveitei o feriado do dia do trabalhador para dar um pulinho lá, em Buenos Aires, logo ali, encontrar o amigo, arquiteto e urbansketcher Norberto Dorantes. Desenhamos o cruzamento da Av. Santa Fé com a Av. Callao enquanto conversávamos sentados no café da esquina. Valeu Norberto, até a próxima e aquele abraço.segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Bar do Mineiro + feijoada + amigos + sketchbook
Tarde ensolarada no Rio de Janeiro. A boa foi encarar uma feijoada com os amigos no bar do Mineiro, Santa Teresa.
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quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Instituto Moreira Salles
Esta aquarela foi o resultado de uma tarde agradável no Instituto Moreira Salles (Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea, Rio de Janeiro). Um lugar tranqüilo e muito gostoso para desenhar. Depois que conheci o Cárcamo venho tentando explorar a transição de cores na própria folha de papel e ousando mais nas cores e contrastes (obrigado mestre, eu tento). É claro que não esqueço nunca meu aquarelista favorito, John Singer Sargent. Ele sempre acaba impregnando tudo que vejo.
A casa, construída nos anos 40, foi projetada pelo arquiteto Olavo Redig de Campos e os jardins e murais em azulejos são assinados por Roberto Burle Marx, apenas. A casa realmente impressiona, é um belíssimo exemplo da arquitetura moderna. Hoje em dia a casa foi alterada para abrigar exposições, sessões de cinema e um café. Nesta última visita encontrei diversos panoramas (do Rio, Recife, Salvador e outras cidades) feitos por viajantes. Pude ver as máquinas fotográficas antigas utilizadas por Pierre Verger, observei as matrizes de pedra para imprimir as litografias dos panoramas da cidade. Havia também uma sala cilíndrica onde os panoramas eram projetados em quase 360graus. Descobri que, antes da invenção do cinema, existiam na Europa construções cilíndricas (algumas com cerca de 10 metros de altura e 100 de circunferência) para a exibição de panoramas de cidades como Rio de Janeiro, Recife e Salvador; e isso atraia milhares de pessoas.
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terça-feira, 20 de setembro de 2011
Três Vistas do Pão de Açúcar
No último domingo fiz um passeio de van no Rio de Janeiro, com mais de dez amigos desenhistas. Uma nova idéia chamada Sketch & Van surgida no contexto do encontro mensal de desenhistas cariocas (feijão ilustrado). Nós percorremos diversos lugares e fizemos desenhos de 20 minutos, 30 minutos, 15 minutos. Eu usei lápis grafite e aquarela. Entre os desenhos que fiz nesse dia estão estas três vistas do Pão de Açucar, local de fundação da cidade do Rio de Janeiro. O dia estava especialmente bonito, perfeito para desenhar a natureza peculiar da cidade carioca.
A primeira vista foi feita a partir do obelisco projetado por Lúcio Costa, no Aterro do Flamengo. A segunda foi feita no Mirante do Pasmado e a terceira foi feita no Parque das Ruínas (uma das vistas mais sensacionais do Rio de Janeiro), em Santa Teresa.
Aquele abraço
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Sketchbook + Sol + Ipanema 2
Quando estou na praia, tranquilo, lendo um livro ou o jornal...as vezes, acabo escutando (sem querer) conversas intrigantes. Quer um exemplo?
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domingo, 10 de abril de 2011
sábado, 2 de outubro de 2010
Sketchbook + Confeitaria Colombo
Fiz estes croquis com caneta nanquim descartável e uma caneta hidrocor aquarelável TOMBO. Eles são o resultado de uma tarde na Colombo, uma confeitaria muito tradicional do Rio de Janeiro, situada na rua Gonçalves Dias, centro da cidade. Foi fundada em 1894 pelos portugueses Joaquim Borges de Meirelles e Manuel José Lebrão, este último, inventor da famosa frase "o freguês tem sempre razão".
Entrar na Colombo é uma viagem no tempo, de volta para a belle époque do Rio de Janeiro antigo. O interior art nouveau data de 1913 e impressiona. Me chamou a atenção o trabalho minucioso dos entalhes do mobiliário em madeira jacarandá, desconheço profissional que seja capaz de esculpir madeira desta forma hoje em dia. Os espelhos (Belgas) são gigantescos e foram dispostos dos dois lados do salão, multiplicando o espaço infinitamente, fiquei imaginando o transporte e o preço desses espelhos enquanto degustava o famoso chá Colombo.
Os detalhes das bancadas de mármore italiano, o desenho do piso de ladrilho hidráulico, as enormes cristaleiras cheias de doces deliciosos, tudo deixa o ambiente com aquele ar de sofisticação e elegância.
E pensar que naquelas cadeiras, talvez até na minha, já sentaram vários figurões, como Olavo Bilac, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, rei Alberto da Bélgica (em l920), e a rainha Elizabeth da Inglaterra (em l968).
Para coroar o espaço, uma clarabóia com um belíssimo vitral deixa entrar um pouco de luz natural em um dia chuvoso no Rio de Janeiro.
Sketchbook + Morro da Conceição
às vésperas da eleição para Presidente,
para curar a ressaca do escravos da Mauá
A primeira vez que ouvi falar no morro da Conceição foi na graduação em arquitetura e urbanismo, mas que porra de morro é esse? pensei. Santa ignorância, o morro é um dos marcos da ocupação original da cidade e, junto com os morros do Castelo, de Santo Antônio e de São Bento, delimitava o núcleo urbano do Rio de Janeiro, onde a cidade se desenvolveu durante os seus três primeiros séculos de vida desde a sua fundação, em 1565.
O aspecto da ocupação residencial de suas encostas e o rítmo dessacelerado de seus habitantes nos remetem, até hoje, aos bairros tradicionais portugueses. No entanto, as transformações urbanas no entorno e o crescimento da cidade acabaram escondendo o morro atrás de enormes edifícios. Não é de se admirar que um estudante universitário ignorante não conhecesse o lugar, ele não era visível aos desatentos ou aos exploradores menos curiosos. Enfim...mas é melhor ficar escondido do que compartilhar o destino dos morros do Castelo e de Santo Antonio, ambos derrubados ainda na primeira metade do século XX.
Uma pequena capela construída no topo do morro em 1590 em homenagem à Nossa Senhora da Conceição acabou dando origem ao nome do morro. Mas além do nome no morro, alguns nomes de ruas são muito interessantes e nos transportam para um tempo que não existe mais, um tempo mais informal, onde os nomes das ruas falavam um pouco sobre as mesmas. Como exemplo, posso citar a rua do Escorrega (que é um ladeirão) ou a rua do Jogo da Bola, a travessa do Sereno, o largo da Pedra do Sal (onde as embarcações descarregavam sal no passado).
No morro da Conceição, a cultura carioca se manifesta na rua, no espaço público, e mistura todo tipo de gente. Gente como a gente e também as figuras mais bizarras. Acho que isso é o máximo, é ótimo, e para completar, totalmente grátis, 0800.
A famosa Pedra do Sal era e é o ponto de encontro de sambistas. Toda segunda-feira à noite podemos aproveitar a concorrida roda de samba da Pedra do Sal para ouvir e cantar de peito aberto os sambas clássicos de Candeia, Cartola, Walter Alfaiate, Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Élton Medeiros, Dona Ivone Lara, Donga, Geraldo Pereira e tantos outros. Como diz a música:
"a nêga vai reclamar, isso pra mim é normal,
toda segunda-feira tem roda de samba na Pedra do Sal."
Nas noites de sexta-feira, a boa para matar a saudade das clássicas marchinhas de carnaval é o disputado bloco do Escravos da Mauá, que rola no largo de São Francisco da Prainha.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Sketchbook + Sol + Ipanema
Tenho uma "tioria" (expressão que uso para pseudo-teorias cientificamente não comprovadas, vulgo, minha opinião). O pessoa que não gosta de praia não é inteiramente carioca, é um semi-carioca ou um pseudo-carioca. Assim como a pessoa que nasce na cidade do Rio de Janeiro e não torce para o Flamengo ou que não gosta de samba, de Cartola, Candeia, Paulinho, de tardes de domingo no Maráca, de feijoada na Portela, que não fica rouco quando vai na Pedra do Sal ou no Renascença (salve meu amigo Moacyr Luz, um abraço), que não se acaba nos blocos de Carnaval, que nunca mandou ver uma pizza na Guanabara às quatro da madruga... também são semi-cariocas. Não adianta, não entendem a liturgia do cargo, não compartilham do nosso genius loci, das histórias cotidianas que correm nas artérias dessa cidade.
Entre um mergulho e outro, fiz no meu sketchbook estas aquarelas, em mais um habitual lindo dia de calor na cidade maravilhosa. Levei um pequeno estojo de aquarela, lápis e borracha e alguns pincéis. O desenho tem que ser rápido, as pessoas chegam ,ficam um pouco e vão logo embora, mudam de posição toda hora, algumas só passam (como os ambulantes). Os desenhos das pessoas foram se sobrepondo, as pessoas que via eram desenhandas sobre os desenhos daquelas que haviam partido. É preciso capturar o espirito da cena, a essência do lugar, incluir os personagens urbanos, os arquétipos do inconsciente coletivo, o cara do mate, o vendedor de biquinis, o cara da mousse, as falas dos ambulantes, a mulher gostosa, o morro dois irmãos.
Durante o trabalho acabou acontecendo um acidente feliz, algo não planejado. O cara do mate foi desenhado sobre o desenho das pernas das meninas que estavam atrás dele. Ficou parecendo a sobreposicão de duas camadas de desenho, mas também ficou parecendo a imagem de uma outra coisa refletida no latão de mate. Gostei dessa ambiguidade, um desenho que transita entre duas coisas, talvez, tenha algo a mais para oferecer. Uma coisa que paira entre possíveis categorizações é melhor que outra que entra direto dentro da caixa. provoca uma real experiência. Certa vez, um professor meu, para exemplificar essa questão, usou uma citação de Picasso: Quero fazer algo que é um morcego sem deixar de ser uma caixa de fósforo.
domingo, 12 de setembro de 2010
sábado, 3 de julho de 2010
Desenho na Urca
Sábado de Sol no Rio de Janeiro. Para variar, acordo atrasado para a aula de chorinho na Urca, tenho que sair correndo. Não vou de carro, o dia está tão bonito, que cidade, que sorte. Pedaladas apressadas pela Glória. Da confeitaria sai um cheiro delicioso, mas não dá pra parar, sigo em frente, rumo ao aterro. Passo ligeiro pela passarela do Reidy e pelos jardins do Burle Marx. Um olhar rápido em tom de agradecimento na direção do Outeiro. Meu chapéu Panamá sai voando da cabeça. Com reflexos surpreendentemente apurados, cato o chapéu no ar, sem parar a magrela e sem olhar pra trás. Bruce Lee ficaria com inveja de tanta habilidade. Afundo a cabeça no chapéu e toco o barco, ou melhor, a bike. Os atletas de final de semana passam pra lá e pra cá, a galera toca a bola na pelada, alguém grita meu nome – Rafaaa!!! - Mas não dá pra parar a bike e olhar pra trás, tô atrasado. Respondo o cumprimento com um aceno, mas não tenho idéia de quem me grita.
Botafogo logo ali, a vista do Pão de Açúcar acaba com qualquer mau humor, o vento na cara, o Cristo, o mar, o Sol, tudo perfeito (menos o Mourisco). Meninas de bicicleta pedalam pela ciclovia, me lembro de Vinícius: transitórias estátuas, esfuziantes de azul, louras com peles mulatas, princesas da zona sul. Um buraco me traz de volta à rota, mas o dia está perfeito e Vinícius insiste em pendurar-se no trapézio da minha mente: que douradas maravilhas! Bicicletai, meninada, aos ventos do Arpoador, solta a flâmula agitada das cabeleiras em flor, uma correndo à gandaia, outra com jeito de séria, mostrando as pernas sem saia, feitas da mesma matéria...enxames de namoradas ao sol de Copacabana, centauresas transpiradas que o leque do mar abana! A vós o canto que inflama os meus trin’anos, meninas, velozes massas em chama explodindo em vitaminas.
Finalmente, Urca. Chego em cima da hora da aula. O sábado sempre começa bem ao som de Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Anacleto de Medeiros. O dia pede uma trilha sonora e essa está mais que adequada.
Depois desse “estresse” todo, pego minha bike e vou pra Praia Vermelha (armado de lápis, papel e aquarela), onde havia marcado encontro com alguns alunos de desenho. Tento escolher um tema para desenhar, mas o Pão de Açúcar é quase irresistível. Resolvo fazer uma aquarela para dar conta da luz da tarde que bate na montanha. Aproveito pra colocar minha magrela na composição, desenho a palmeira um pouco mais pra direita, de modo que não atrapalhe a vista do Pão de Açúcar. Passo a tarde ali, curtindo o sábado de Sol em minha cidade maravilhosa. Está ai o resultado.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Desenho no Parque Lage
Este é o resultado de uma tarde de sábado no Parque Lage.
O Parque Lage é um lugar muito bonito do Rio de Janeiro, uma boa pedida para tomar café nas manhãs de sábado e domingo, para passear com a namorada ou esposa e também para deixar a criançada correr solta.
Dizem que a esposa do antigo proprietário, Henrique Lage, a cantora lírica Gabriela Benzanzoni, costumava cantar da varanda do segundo andar para os convidados de suas magníficas festas. Hoje o edifício abriga a Escola de Artes Visuais e os trabalhos dos alunos podem ser vistos pelos corredores.
A história do Parque Lage data de 1811, quando Rodrigo de Freitas Mello e Castro adquire uma fazenda pertencente a Fagundes Varela, o Engenho de Açúcar Del Rei, às margens da lagoa. John Tyndale, paisagista inglês, recebe, em 1840, a incumbência de reprojetar a fazenda e imprime à estrutura de seu projeto todo o romantismo encontrado em parques de sua terra natal. Em 1859, o parque passa para as mãos de Antônio Martins Lage, por um processo de compra e venda. Neste momento, recebe o nome de “Parque dos Lage”, o qual, mais tarde, no ano de 1900, passa a seus três filhos como herança. Em 1913, a chácara é comprada pelo Dr. César de Sá Rabello, permanecendo como sua propriedade até o ano de 1920, quando Henrique Lage, neto de Antônio Martins Lage, consegue reaver a antiga propriedade da família.
Na década de 1920, Henrique deu início a sua remodelação, convidando o arquiteto italiano Mario Vodret como projetista do palacete que fora de seu pai. Seu estilo era bastante diferente, mesclando diferentes tendências da época, enquadrando seus trabalhos no período da arte que se denominava eclético, o qual agradava a cantora lírica italiana, esposa de Henrique Lage, Gabriela Bezanzoni. Em seu centro há um pátio com piscina e, em sua fachada, um pórtico bastante proeminente. Os jardins foram concebidos geometricamente, de acordo com a grandiosidade da mansão, de onde se avista o morro do Corcovado.
Entretanto, endividado com o Banco do Brasil por conta de negócios feitos com esta instituição financeira, Henrique Lages precisou desfazer-se de parte de seu patrimônio. Entregou parte de seus bens ao banco como pagamento e, a outra, vendeu para empresários particulares. A fim de fazer sobreviver o Parque, foi tombado como patrimônio histórico e artístico com a ajuda do governador Carlos Lacerda.
Na década de 1960 a propriedade foi desapropriada e convertida em um parque público. No palácio funciona a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, criada em 1975 pelo Departamento de Cultura da Secretaria de Estado de Educação. <http://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Lage>
Na década de 1960 a propriedade foi desapropriada e convertida em um parque público. No palácio funciona a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, criada em 1975 pelo Departamento de Cultura da Secretaria de Estado de Educação. <http://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Lage>
Desenho no Parque das Ruínas
Esse é o resultado de uma tarde no Parque das Ruínas.
O Parque das Ruínas é um belíssimo mirante do Rio de Janeiro. De lá, tem-se uma visão ampla do centro da cidade e da orla do Rio – desde o Aeroporto Santos Dumont até a Urca.
No início do século XX, foi a casa da grande mecenas da Belle Époque carioca, Laurinda Santos Lobo.
Laurinda foi uma mulher especial, que deu a Santa Teresa vida e graça no início do século passado com seus saraus, onde prontificavam expoentes da vida cultural internacional como, por exemplo, Villa-Lobos e Isadora Duncan. Conhecida como a “marechala da elegância”, Laurinda reunia intelectuais e artistas nas magníficas dependências do palacete, e hoje é um dos mais belos projetos premiados do arquiteto Ernani Freire, que manteve a estrutura das ruínas agregando contemporaneidade a casa.
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